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O que se faz na Ilha do Mel fica na Ilha do Mel?

Por que a sociedade considera atentado violento ao pudor a exposição da forma como viemos ao mundo? Por que alguns pedaços de pano que nos cobrem o corpo, ou a ausência deles, causa tanto incômodo? Por que alguém pode ser preso se resolver sair pelado na rua? O que há no nosso corpo que causa tantos sentimentos confusos? Não há nada com o nosso corpo, mas sim com o que foi introjetado na nossa mente desde que nascemos e passamos a sofrer todos os tipos de condicionamentos culturais. Condicionamentos que muitas vezes nos causam sofrimento, que nos oprimem e nos impedem de nos realizarmos em toda a nossa potencialidade. Ouvi que podem também nos proteger, mas eu me pergunto, “nos proteger do quê?”. Estas são questões que sempre me intrigaram. Neste final de semana, de uma forma totalmente inesperada, eu tive a oportunidade de vivenciar uma experiência muito interessante. Eu fui curtir o festival de jazz que está sendo realizado na Ilha do Mel e encontrei o Lobo, um artista singular e genial, que veio da Europa e mora há alguns anos aqui no litoral paranaense. Ele me convenceu a posar de modelo para que ele fizesse uma intervenção artística no meu corpo. Fiquei só com a roupa de baixo, em frente ao palco onde a banda se apresentava na pousada onde acontecia o festival. Ele dobrou a minha cueca de modo que ela ficou literalmente entrochada na minha bunda. As pessoas ficaram chocadas. Aliás, acho que se eu estivesse pelado não teria causado tanta polêmica.

Confesso que não sei muito bem o que me motivou a aceitar aquele convite, mas eu sentia que estava seguindo o meu coração. Ele começou a arremessar tinta pelo meu corpo, meu cabelo e meu rosto, enquanto a vocalista da banda MUV, que se apresentava, cantava a cena, convidando as pessoas a uma reflexão. Eu me diverti muito com a experiência e até agora, dois dias depois, reflito com a repercussão desta brincadeira. A minha companheira nessa viagem, que estava presenciando tudo, uma das pessoas mais especiais e importantes que já conheci na vida, na hora começou a ouvir as mais diversas reações, a começar por aqueles que me julgavam gay ou um maluco. Minhas irmãs começaram a receber mensagens e achavam que eu estava drogado. Amigos estão me ligando para saber se está tudo bem comigo e se tinha acontecido algo. Eu acho bastante compreensível estas reações e de forma alguma me incomodo com a preocupação. Pelo contrário, agradeço pela existência de cada pessoa que se preocupa comigo. Mas não deixa de me chamar a atenção como muitos monstros internos se manifestam cada vez que nos deparamos com algo que nos convida a abandonar uma zona de conforto. Tenho me deparado com as mais diversas reações de pessoas muito próximas, e de outras nem tanto, que manifestaram o amor que sentem por mim cada uma à sua maneira. Outros, que manifestaram seus próprios preconceitos e dificuldades, o que me levou a perceber que, de fato, a minha atitude provocou uma reflexão. Uma reflexão que não diz respeito ao que eu fiz, mas aos nossos próprios medos, aos nossos próprios fantasmas, a muita coisa que nos impede de ser quem realmente somos. Por exemplo, recebi uma mensagem de um amigo que eu amo e continuarei amando e respeitando muito. Vou transcrever a sua mensagem: “Candidato a vereador…. Bom dia! Te chamava antes de vereador, mas meu voto não vai para um cara que está na night na ilha do mel, de tanga pintando o corpo com um maluco caiçara. Continua sendo meu amigo! Por isso #ficaadica”. Quando eu li esta mensagem, percebi que quase nada nela dizia respeito a mim. Até mesmo porque o Lobo que eu conheço, retratado por alguém que nunca o viu, nem mesmo o conheceu pessoalmente, como um “maluco caiçara”, na minha visão é um ser humano admirável. Lembrei de minutos antes de ele começar a me pintar, quando ele ofereceu uma tela em branco para duas crianças que estavam no festival de jazz com seus pais e os estimulou a pintar esta tela. Ele não dizia às crianças o que elas deveriam pintar, mas as estimulava perguntando o que sentiam e o que gostariam de expressar no quadro. Depois ele os orientou a usar as tintas e os pincéis, mas não interviu no processo criativo deles. O resultado daquela relação linda foi uma obra verdadeiramente incrível, surpreendente (a foto que ilustra este texto retrata o quadro pintado pelas crianças; foi registrada pelo celular, assim como todas as outras fotos que acompanham os textos que eu publiquei aqui no meu blog). Percebi que aquele caiçara maluco tinha marcado para sempre a vida daquelas crianças e daquela família, pois os pais ficaram encantados com o produto da criatividade dos seus filhos, que nem eles mesmos conheciam. Percebi que havia muito amor no coração daquele artista diferente, que realmente foge de todos os padrões que a sociedade considera requisitos para a normalidade.

Com todo o respeito ao meu amado amigo, eu agradeço pelo #ficaadica, mas nesse caso específico não ficarei com ela. Ficarei com o caminho que o meu coração tem indicado, que tem me levado a certos questionamentos mesmo. Mas também tem me levado a enxergar o mundo de uma forma mais colorida, mais alegre, com menos culpa e julgamento. Compreendo que todas as pessoas são divinas. Não posso julgar um comportamento, nem mesmo aqueles que, a princípio, parecem querer me agredir. Não me sinto agredido por eles, pois entendo que manifestações agressivas e preconceituosas dizem muito mais do agressor do que daquele a quem tais manifestações são dirigidas. Mas me chama a atenção, sim, mensagens desaprovando o que eu fiz, dizendo que foi um absurdo, que foi errado, vindas de pessoas que compartilham a semana inteira vídeos de mulheres que foram filmadas por homens com quem tiveram relacionamento sexual e depois, para se vingar, divulgaram as imagens na internet. Eu não os julgo por isso, mas eu, sinceramente, não compartilharia este tipo de mensagem. Procuro pensar muito sobre a qualidade dos meus pensamentos e sobre a responsabilidade que temos acerca daquilo que colocamos em circulação. Seja como for, sua felicidade não depende de mim, não depende de absolutamente nada. Eu me realizo compartilhando dessa existência com pessoas tão especiais como as que me cercam, mas eu compreendo que a minha felicidade não depende delas, nem mesmo das pessoas mais importantes e próximas que eu tenho na minha vida. Mesmo querendo muito ajudar a construir um mundo mais feliz, com menos fome, violência e injustiça, entendi que pouco posso fazer se, antes de qualquer coisa, eu mesmo não for feliz. Tudo o que podemos fazer enquanto seres que coexistem em um planeta chamado Terra é compartilhar desta felicidade, sensibilizarmos uns aos outros para a beleza que existe na vida, nesta incrível oportunidade de nos relacionarmos e reconhecermos a divindade que existe em cada ser humano, sem culpa e sem medo.