Você já se perguntou por que algumas drogas são proibidas enquanto outras são estimuladas pela nossa cultura?

Bom, o que se alega é que a proibição a determinadas drogas possui basicamente dois objetivos. Primeiro, inibir o consumo. Em outras palavras, acredita-se que com a proibição menos pessoas irão consumir a droga considerada ilícita. Segundo, reduzir a oferta da droga proibida, ou seja, acredita-se, também, que ao proibir determinada substância haverá uma diminuição da sua circulação na sociedade. Evidentemente, nenhum dos dois objetivos têm sido alcançados com essa política insana, para a qual um dia olharemos como hoje se olha para as leis que regulamentavam a escravidão.

O Brasil tem a terceira maior população carcerária do mundo. Em 2012 eu conheci uma destas pessoas que teve o seu bem mais precioso, a sua liberdade, retirada porque foi pego com algumas gramas de maconha. Era um garoto de 19 anos. Na época eu era o responsável pela política de drogas de Curitiba e, como também sou advogado, a mãe do menino me ligou desesperada pedindo ajuda.

Eu me sensibilizei com aquela mãe, entrei em contato com um amigo especialista em direito criminal, sensível à crise do sistema penitenciário brasileiro e que, assim como eu, acredita na recuperação dos seres humanos e luta pela vida. Assim que foi possível fomos até a delegacia de polícia onde o rapaz estava preso. Pedimos para vê-lo, esperamos um pouco e tempos depois ele surgiu conduzido pelo agente que o algemou em um cano fixado em uma parede na nossa frente. Nos apresentamos e começamos a conversar e colher as informações de que precisaríamos para pedir ao juiz a revogação da sua prisão. O menino estava muito magro, aparentava umas feridas na pele, acredito que por causa da insalubridade do local. Ele estava em uma sela que foi projetada para 30 pessoas, onde estavam amontoadas mais de 100. Ao fim, perguntei a ele se ele gostaria que eu dissesse algo a sua mãe, pois saindo dali eu me encontraria com ela. Ele olhou bem nos meus olhos e disse: “Doutor, eu quero apenas um sabonete e uma escova de dente”, pois estava há quase uma semana lá e ainda não lhe havia sido oportunizada a chance de fazer higienização.

Olhando nos olhos desse jovem rapaz, senti uma profunda inquietação e me perguntei porque a nossa sociedade fazia aquilo com tantas pessoas que provavelmente precisariam de atenção e cuidados médicos, psicológicos, afetivos, espirituais ou existenciais. Senti tristeza por me dar conta que a sociedade da qual eu faço parte estava investindo boa parte dos recursos que produzimos na devastação de vidas e não no resgate ou na preservação delas. Não pude deixar de refletir sobre como aquele jovem sairia de lá! Eu não conseguia aceitar que aquela era uma boa maneira de lidar com um garoto que tinha algumas gramas de maconha.

Não é possível que a gente não consiga pensar em meios mais inteligentes e humanos para lidar com as drogas, ao invés de continuarmos canalizando bilhões dos recursos públicos para manter um complexo e cada vez mais pesado sistema penitenciário, que depois devolverá ao convívio social pessoas ainda mais desumanizadas. Um sistema que nunca foi capaz de atingir os objetivos para os quais foi supostamente idealizado.

A devastação que eu constatei na vida daquele jovem é evidente e profunda. É difícil reparar uma vida marcada por esta experiência. Contudo, não é só na vida dos marginalizados que essa política repressiva produz estragos, os estragos têm alcançado a todos indistintamente.

Eu venho de uma família de classe média que sempre foi muito unida e desde muito cedo tive contato com drogas, que encontrei pela primeira vez dentro da escola. Estudei nas melhores escolas de Curitiba, nunca perdi nenhum ano de estudo e aos 22 anos concluí a faculdade de Direito. Muitas pessoas se perguntam o que leva um jovem a procurar a experiência com drogas e eu confesso que eu não sabia muito bem o que estava buscando. Eu sempre fui muito questionador e também sempre me sensibilizei muito com o sofrimento humano, convivendo desde as minhas lembranças mais remotas com todo tipo de evidência de que vivemos em um mundo doente. Queria fazer alguma coisa pra mudar o mundo, para não ver mais pessoas sofrendo. Isso me angustiava muito. Mas a questão que mais me angustiava era uma pergunta mais profunda que também desde as minhas lembranças mais antigas eu fazia a mim mesmo: o que será que acontece depois que a gente morre?

O fato é que refletindo hoje, mais de 20 anos depois, eu sinto que talvez na época eu tenha visto nas drogas que eram proibidas uma forma de expressar minhas angústias, meu inconformismo com um mundo doente e desigual e, na minha juventude, me rebelar ousando fazer algo que era proibido, que me diziam a todo momento para eu não fazer, mas eu sabia que não me mataria ou me tornaria automaticamente um zumbi. Eu sei que também estava em busca do prazer que eu sabia que elas produziam, procurava me divertir com meus amigos, ao mesmo tempo em que pensava talvez estar amenizando a tristeza diante de tanta coisa que eu achava que precisava mudar no mundo – um mundo que investe boa parte da riqueza que produz, da tecnologia que desenvolveu e do conhecimento que alcançou na produção de bombas, armamentos e aparatos militares enquanto ainda existem centenas de milhares de pessoas passando fome diante dos nossos olhos. Eu pensava: recursos não faltam, estamos fazendo alguma coisa errada.

Anos depois, convivendo com centenas de pessoas que chegavam para se tratar nas clínicas onde fui voluntário – médicos, poetas, professores, advogados, operários de fábricas e de montadoras, artistas e empresários – comecei a perceber que, de fato, a sensibilidade e a tendência questionadora eram características quase sempre intensamente presentes naqueles corações inquietos. Corações que também eram gigantes, generosos, incapazes de cometer mal a alguém. Justamente os que mais sofrem com as dores da humanidade, com a injustiça e a desigualdade. Só muito tempo depois comecei a me dar conta que muitos destes “dependentes químicos” foram mais vítimas do que pacientes. Vítimas de uma cultura manicomial repaginada que banalizou o processo de internação e revigorou as velhas e mais simples estratégias de silenciar o diferente, de não acolher os que não são considerados normais em uma sociedade doente.

Isso explicava as ligações que eu recebia invariavelmente todas as semanas de mães que diziam mais ou menos assim: “Diogo, eu peguei meu filho experimentando maconha. Ele tem 16 anos e estou ligando para saber onde interná-lo”.

Existem muitos interessados que exploram esse modelo e dependem da sua continuidade. A começar pelas cada vez mais caras clínicas e hospitais “especializados” e comunidades terapêuticas que brotam em todos os cantos do país. Clínicas que chegam a cobrar mais de 100mil reais uma diária e que acabam trazendo um alívio momentâneo para a família, uma desintoxicação, mas raramente ajudam na compreensão da raiz dos problemas, até a indústria farmacêutica que produzirá os “medicamentos” com que entupirão os pacientes, silenciando-os, com drogas aceitas pela sociedade, reguladas pelo Estado e produzidas por uma das indústrias mais poderosas e lucrativas que existem. Este modelo que acolhe todos estes interesses escusos e sobrevive à base de muito medo e de muitas mentiras que criam necessidades que na verdade não existem, que chega até a criar as doenças para as quais oferece a solução, não visa à autonomia. Muitos destes psicólogos pararam de estudar e ainda estão presos a teorias que surgiram a partir de pesquisas bastante antigas que foram revisitadas por importantes cientistas contemporâneos, como o neurocientista da Universidade de Columbia, em Nova Iorque, Carl Hart, que encontraram nelas fragilidades metodológicas e incoerências que trazem muitas outras reflexões.

Estes profissionais da antiga psiquiatria repaginada dependem de todos estes que diagnosticam como dependentes. Há uma verdadeira indústria de internações que não poucas vezes acaba causando danos tão difíceis de superar quanto aqueles sofridos por alguém que tenta se ressocializar depois de sair de um presídio. Muitos destes centros de tratamento são estruturados para manter as pessoas por anos e anos depois da internação, onde elas passarão por processos de condicionamento e ouvirão a cada minuto que são doentes, incapazes e que devem ficar longe de certos perigos. Aquele que resolver fazer uso novamente da droga à qual se atribuiu todos os seus problemas, voltará ao confinamento. Alguns vão para uma unidade de desintoxicação, onde são dopados com medicamentos pesados, muitos são amarrados e dormem por dias até “aceitarem” o processo de condicionamento. Cansei de ver jovens garotos e garotas amarrados com os olhos assustados ao acordar dentro de uma dessas clínicas sem saber muito bem o que tinha acontecido e por que estava lá.

Eu comecei a entender por quê. É muito mais complexo do que diz o senso comum, que depois de anos e anos reproduzindo entre gerações esta história que fez com que centenas de milhares de pessoas acreditassem que elas eram imorais, culpadas, criminosas, quando na realidade eram muitas vezes irresignadas. Sentiam que o mundo estava muito doente, não aceitavam tudo que lhes contavam como verdades absolutas, se incomodavam e sofriam, mas acabavam submetendo-se a um processo tão longo, incessante e intenso de condicionamento ao longo de suas vidas, que a culpa e o sentimento de ser marginalizadas acabavam se encrustando nas próprias células.

Sempre foi muito comum uma família inteira depositar sobre os ombros dos já carimbados pra vida toda “dependentes” a responsabilidade por todos os problemas e sofrimento familiares, ou pelo menos boa parte deles. Alguns lhes entregam a responsabilidade pela própria felicidade! Assim todos os fantasmas de cada um permanecem nas profundezas bem escondidos.

É um peso muito pesado de se carregar. Também muito cruel. Porque dificilmente alguém que entrega a responsabilidade pela própria felicidade nas mãos de outra pessoa, mesmo a pessoa mais amada, será de fato feliz. Ainda fará aquele que escolheu como seu bode expiatório se sentir culpado pelo sofrimento de todos aqueles que mais ama, enquanto evitam olhar para as próprias sombras, dores, crenças, medos, preconceitos.

Muitos destes programas são produzidos dentro de grandes universidades em pesquisas e trabalhos publicados por professores, doutores, que banalizam a internação, prescrevendo-a com muita facilidade (eu já vi casos, por exemplo, não raros, de meninos de 13 anos chegando nas clínicas porque experimentaram maconha), ao mesmo tempo que são os gestores das clínicas que receberão os internos e ganharão muito dinheiro com isso.

Não se procura emancipá-los. Sua emancipação é meu prejuízo.

Muitas vezes, todos os problemas de toda uma família acabam sendo depositados nos ombros destes mais sensíveis e irresignados que chegam culpados geralmente desgastados de carregar toda essa carga.

Nada disso é necessariamente consciente, pensando em se livrar de um peso ou querendo prejudicar o paciente identificado. É um processo inconsciente evitar enfrentar as suas verdadeiras questões que muitas vezes estão bastante enraizadas nas profundezas da nossa alma, não são tão fáceis de mexer e causam dor, às vezes um sentimento de solidão ou de despertencimento. Todas estas coisas que fazem crescer muito, geram aprendizado e amadurecimento, coisas das quais eu talvez também tenha procurado escapar quando eu fumei maconha pela primeira vez.

Meus pais souberam desde a minha primeira experiência que tive com maconha e não reagiram bem. Na verdade, não sabiam muito bem como lidar com aquilo e, exatamente como a nossa cultura ensinou, eles tiveram muito medo, ficaram muito confusos e acabaram reproduzindo a lógica do castigo e da ameaça. É óbvio que sempre quiseram o meu bem e acreditavam que estavam me afastando de um mal terrível.

Parece que aquilo tudo me deixava ainda mais revoltado, pois eu vi a vida toda dentro de casa drogas que eram aceitas e causavam muito mais prejuízos sociais do que outras que eram estigmatizadas. Aquele discurso não fazia sentido pra mim, não era condizente com o que víamos na realidade. Com o tempo me afastei dos meus pais e de todos os educadores que passaram a reproduzir aquelas crenças e fiquei meio perdido e revoltado.

Acho que é natural em um menino de 15 anos, já com alguns anos de sua vida dentro de uma sala de aula, estes espaços de confinamento e de condicionamento, onde não fui estimulado a me conhecer, antes de me apresentarem aos números e às disciplinas, onde não aprendi a lidar com minhas próprias emoções, a desenvolver as habilidades mais básicas para o convívio humano, mas passei tanto tempo com colegas uniformizados e enfileirados em salas de aula, sendo submetido a reproduções de conteúdo que sentia muitas vezes que não fazia sentido nem para o professor que estava reproduzindo aquelas apostilas.

Lembro também que eu passei a perguntar quem pensa o que a gente pensava dentro da escola. De onde vem este currículo, as disciplinas e conteúdos que irão reproduzir para que a gente receba e comprove depois, em uma folha que será carimbada e deverá ser mostrada depois como um troféu a uma sociedade tão doente, ou fará com que eu me sinta menor, menos capaz, do que um colega que foi bem avaliado? Que competição sem sentido.

Só que o que eu aprendi durante toda a minha vida estava tão enraizado em mim que eu sentia que eu não podia fazer nada, que seria uma coisa muito errada questionar, principalmente porque meus pais sempre foram meus heróis. Eu sempre acreditei muito neles e sabia que tudo era para o meu bem e, de fato, eles pensavam que era. Só que eles também reproduziam aquilo que aprenderam. E quando eu passei a questionar, buscar cada vez mais desesperadamente um sentido para tudo aquilo, os conflitos e julgamentos estouraram.

Eu me sentia errado, culpado, acreditava que estava fazendo algo imoral. Me faziam acreditar que tinha algo a ver com o meu caráter.

Eu nunca na minha vida quis magoar meus pais. Ao contrário, acho que passei a vida toda em busca desse reconhecimento. Mas o que eu experimentava com as drogas que eu usava era bem diferente do que me diziam, procurando me convencer a não fazer aquilo. O argumento e as histórias sempre foram baseados no medo e no terror, mas o que eu vivenciava com meus amigos era algo totalmente diferente. Era divertido e inegavelmente prazeroso.

Assim eu fui questionando cada vez mais esta história que passou a ser disseminada de que o uso de algumas drogas – as que são estigmatizadas – viciam no primeiro contato, levam à morte ou à crimes violentos de uma forma imediata, destroem a vida como que em um passe de mágica, apostando que este tipo de argumento iria nos afastar de um possível contato com estas substâncias demoníacas.

Ao mesmo tempo em que eu me isolava, todas aquelas dúvidas e angústias cresciam em mim e cobravam uma atitude. A que eu encontrava era seguir buscando cada vez mais experiências. A intensidade das minhas dúvidas crescia e também a intensidade das experiências que eu buscava com as drogas.

Eu já não aguentava mais ver as pessoas que eu mais amo sofrerem tanto e sofrer ainda mais achando que eu era o responsável por todo sofrimento. Resolvi pedir ajuda e fui internado em uma clínica de reabilitação. Fiquei pouco mais de um mês, tomava ansiolítico, antidepressivo, moderadores de humor, comia e dormia muito bem, participava de uma ou outra atividade terapêutica, dentro dos muros de uma casa enquanto meus pais respiravam um pouco aliviados. A cada minuto lá dentro eu ouvia que era doente e recebia uma infinidade de restrições e fórmulas que mais pareciam receitas que escondiam ainda mais as pistas daquilo que eu estava buscando.

E o que eu estava buscando nada mais era do que saber quem eu sou, qual era a minha vocação, como eu poderia contribuir para melhorar o mundo. Depois de alguns dias, sem lidar com as raízes das minhas inquietações eu voltava para a mesma realidade.

As experiências pelas quais eu passei me fizeram compreender um grande equívoco que tem causado muito sofrimento na Terra. Uma grande mentira que nos contam desde muito cedo e que faz com que uma questão bem simples se torne fonte de muito medo e de muita dor. A mentira de que o uso de uma droga, seja ela qual for, é um defeito de caráter e que aquelas que em um determinado momento da história resolvemos escolher para serem proibidas, devem ser eliminadas do mundo, devem deixar de existir, e quem resolver descumprir estas normas perderá aquilo que tem de mais precioso, a sua própria liberdade. 

Depois de muito sofrimento, de muita dor, mas também de muito aprendizado e gratidão eu percebi que o julgamento moral que incide sobre alguém que usa uma substância estigmatizada pode gerar prejuízos e problemas muito mais graves do que o próprio uso dessas drogas em si. Descobri que eu não era “sujo”, “imoral”, “incapaz”, ou merecedor de menos respeito por usar qualquer substância seja lícita ou ilícita. Foi também depois de muito estudo, de pesquisa e de vivência que resolvi questionar a proibição, a lógica repressiva e a cultura do pânico que se propaga aos jovens como prevenção.

Descobri que a melhor forma de prevenir não só problemas relacionados ao uso de drogas, mas violência, distúrbios, transtornos, conflitos, é estimular os aspectos positivos de uma vida saudável. Com todo o respeito aos admiráveis profissionais da segurança pública do nosso país, os policiais que estão lutando e morrendo, na linha de frente desta guerra que foi declarada de dentro de gabinetes, também vítimas deste modelo nefasto de política pública, multiplicador de morte e sofrimento, não são os que devem estar nas salas de aula dizendo aos estudantes “diga não as drogas”, acreditando com isso estar ajudando a mantê-los afastados de um contato que pode ou não acontecer, dentro ou fora da escola. Devemos educar os adolescentes, no momento adequado, com honestidade e franqueza sobre os riscos, efeitos e funções de cada tipo de substância, mas, antes de qualquer coisa, focar nos aspectos positivos de uma vida saudável. Os jovens são muito influenciados por ídolos. Pautam muito seus comportamentos por quem idealizam e admiram. Ao invés do discurso do medo, por que as campanhas não estimulam o que há de bom na vida, com artistas famosos admirados, ídolos do esporte e do universo que lhes interessa, que já não são mais os nossos? Youtubers, gamers, programadores seriam os comunicadores da mensagem que nem mencionaria qualquer tipo de droga. Se virarmos a chave mental e iniciarmos uma mudança cultural que desvie o foco do medo para o amor, da repressão para o diálogo, para o desenvolvimento de todas as potencialidades de cada ser, para a arte, enfim, deixar de investir na morte para o investir na vida, pode ser que tenhamos mais harmonia, pessoas equilibradas e autônomas.

E todo o aparato policial, recursos e estrutura dos profissionais da segurança pública, estes tão importantes servidores, seria voltado para as investigações importantes, para a aqueles que causam as verdadeiras imoralidades e que hoje estão protegidos por cargos, privilégios e mordomias, para os corruptos e criminosos mais poderosos que dificilmente são alcançados pela mão punitiva do Estado. A mesma mão que diariamente alcança com muita facilidade, e com cada vez mais voracidade, uma população inteira de marginalizados. Esta mão que não deveria estar voltada para quem usa ou vende drogas, até mesmo porque não existe nenhum único momento da história da humanidade em que não existiram drogas.

Descobri que as pessoas não passarão a usar mais uma determinada droga porque ela deixou de ser ilegal.

Descobri que a maior parte dos pesquisadores, ativistas e cidadãos que passaram a defender uma mudança na política de drogas, não são usuários destas drogas.

Descobri que a maior parte das pessoas que estão despertando para a necessidade de repensar a guerra contra algumas drogas, não negam que qualquer droga, seja ela qual for, pode causar prejuízos a alguém. Contudo, os danos causados pela proibição e pelo modelo repressivo são incomparavelmente maiores do que os causados pelas drogas em si, quando usadas de forma problemática. Danos tão grandes que muitas vezes são de difícil superação. Marcam a vida inteira a todos que foram ou que ainda são encarcerados diariamente porque portam, consomem ou comercializam substâncias que estão presentes ao longo da história da humanidade.

Descobri que a droga não é boa nem má em si. A depender da dose, do propósito, do contexto em que é usada ela pode ser veneno ou remédio, assim como os gregos antigos lidavam com os mais variados tipos de substâncias.

Descobri que praticamente desde que o ser humano está na Terra, ele se relaciona com toda essa variedade de substâncias que alteram o funcionamento do organismo para os mais diversos fins. Desde recreativos, para celebrar e socializar, até terapêuticos, medicinais, místicos e religiosos.

Descobri que é ingenuidade acreditar que acabaremos com o fluxo de drogas nas cidades, em países de proporções continentais como o Brasil e os EUA, sendo que nem em prisões de segurança máxima esse fluxo é interrompido.

Descobri que o modelo atual de proibição e repressão é uma invenção recente relativamente a toda a história da humanidade, mas nos fizeram acreditar que sempre foi assim, que a polícia é a instituição adequada para lidar com a relação dos seres humanos com as drogas, até que em um determinado momento, no século passado, deixamos de questionar e passamos a reproduzir o discurso, sem fazer juízo crítico sobre ele. Pior, sem olhar para os efeitos dessa maluquice que cada vez mais saltam aos olhos e estão cada vez mais evidentes nos estudos e pesquisas científicas sérios e metodologicamente honestos. 

Descobri que estamos preocupados com algumas drogas como o crack e a maconha, mas nos esquecemos de nos preocupar com o ser humano e de perguntar por que as pessoas usam drogas e têm problemas com elas. O que se busca? Uma anestesia, uma fuga, uma alienação, simplesmente prazer momentâneo? É um sentimento ou uma dor que se procura amenizar, uma emoção com a qual não se está lidando muito bem e da qual se procura escapar?

Os pais não deveriam ser os primeiros a procurar entender o que é, dando apoio, abertura para o diálogo, preservando um ambiente de confiança que permita ao jovem se abrir e se expressar, sem ser julgado, estigmatizado, castigado, ameaçado pelos discursos do medo ou sentindo-se culpado pelos discursos morais? Se um dia percebermos quanto sofrimento é gerado pela reprodução dessa lógica!

Se não for pelo aspecto humano que te sensibilize, perceba que é uma questão também econômica. Você tem ideia de quantos trilhões de dólares movimentam os verdadeiros controladores deste mercado? Aqueles que nunca são presos, que têm tanto poder econômico concentrado, que corrompem todo o sistema político, judicial e policial de países inteiros, enquanto fazem de tudo para continuarmos disseminando medo e pânico, para que a guerra às drogas continue e assim esse monopólio continue em mãos obscuras? Cada vez que eu vejo estas apreensões de drogas exibidas todos os dias, de manhã, de tarde e à noite, nos jornais, eu penso qual o sentido daquelas reportagens. Será que os próprios traficantes já não preparam esta parte que será apreendida e exibida pela polícia nos telejornais, gerando aquela sensação nas pessoas de que a polícia está trabalhando para acabar com este problema das drogas? Apreensões cada vez maiores, assim como o consumo e o lucro do mercado de drogas ilícitas? Enquanto isso, containers, submarinos, aviões e helicópteros espalham drogas pelo mundo todo.

Quando será que focaremos nos seres humanos e não nas drogas? Você acredita mesmo que viveremos em um mundo sem drogas? E as drogas que você usa, mas que são produzidas por grandes indústrias, que são disseminadas culturalmente por belas modelos em campanhas publicitárias tão caras quanto filmes de Holywood?

Seja qual for a resposta, é evidente que a nossa sociedade não tem lidado muito bem com estas questões e reprimir e criminalizar aqueles que se relacionam com substâncias que são estigmatizadas tem gerado problemas inegáveis para a sociedade como um todo.

Todo ser humano tem um talento e com ele se expressará no mundo. Desde muito cedo aprendemos que algumas vocações são mais valorizadas do que outras e com isso disseminamos uma cultura que ofusca o brilho de jovens que estão buscando suas maneiras que contribuir com o mundo. Pensem, por exemplo, o que um garoto de 8 anos ouvirá no mundo hoje, caso manifeste a vocação e o desejo de dançar. E apesar de reconhecer a importância da matemática, quem disse que a lógica, os números, saber calcular, são mais importantes do que saber dançar?

Então mudaremos o foco dos investimentos, dos recursos, da nossa energia, para ajudar os jovens desde muito cedo a descobrirem seus talentos. E passaremos a estimular o brilho, o talento, a autonomia e a liberdade que todo ser humano tem.

Eu trabalho há aproximadamente 15 anos com política de drogas e geralmente sou muito criticado por defender uma mudança profunda nesse modelo repressivo e proibicionista.

Certa vez em uma palestra um homem que me ouvia na plateia interviu e perguntou alto: você que defende a legalização, e se fosse o seu filho usando crack?

Eu nem precisei pensar muito para responder com o coração: “Se fosse o meu filho usando crack, a última coisa que eu desejaria é que ele acabasse enjaulado em um lugar onde nem ratos conseguem sobrevier”, como o garoto do início da nossa conversa. Não desejaria que ele fosse encarcerado em alguma delegacia ou presídio abarrotados de outros criminosos, que ele fosse violentado de alguma forma, julgado ou estigmatizado. Procuraria, com todo amor que um pai pode ter por um filho, orientá-lo, entender suas razões, os motivos que existem por trás desse comportamento, o que ele estaria buscando, e me colocaria ao seu lado para ajudar.

Eu lhe daria tudo que eu tenho. Tudo que ele sempre precisou. Eu lhe daria amor.